Tuesday, 11 October 2016

agroecologia - marcos sorrentino

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Entrevistas
Marcos Sorrentino
A agroecologia tem ganhado cada vez mais espaço no Brasil e no mundo e vem se consolidando através do apoio de um número cada vez maior de indivíduos, incluindo famílias camponesas que buscam alternativas para sobreviver ao agronegócio e mudar os atuais paradigmas de produção e consumo de alimentos. Nesta entrevista, Marcos Sorrentino fala sobre agroecologia e educação ambiental. Ele foi diretor de educação ambiental do Ministério do Meio Ambiente e assessor especial do ministro da Educação, para a construção da política ambiental do MEC. Atualmente é professor livre-docente da ESALQ/USP e coordena o Laboratório de Educação e Política Ambiental (Oca).
Juliana Schober Gonçalves Lima
10/10/2016

É possível existir agroecologia sem o movimento camponês?

Não. O movimento agroecológico não se realiza sem uma cultura camponesa, comprometida com a manutenção da vida na terra, com a terra e a partir da terra. Então, pensarmos numa agricultura de commodities agroecológicas ou agroecologizada é pensarmos pela metade sobre o que a agroecologia nos traz como provocação, reflexão, como proposta de mudança na relação atual não só com a terra, não só com o ambiente rural, mas com a existência humana.

Qual o papel da educação ambiental para a expansão da agroecologia?

Estimular e apoiar a organização de agricultores e agricultoras e contribuir para que a sociedade envolvida, os consumidores, compreendam a importância de alimentos saudáveis, do equilíbrio dos sistemas naturais, de nos contrapormos aos interesses hoje hegemônicos da nossa sociedade, de patenteamento da vida, de sementes e de espécies de uma forma geral. É necessária uma ação de contraponto a isso que é vendido como sendo a ciência redentora da humanidade. Com educação ambiental é possível as pessoas visualizarem as dificuldades que emergem e podem emergir, as disfunções dessas tecnologias e as más intenções de vendedores de soluções rápidas e simples. O papel da educação ambiental é possibilitar que haja uma reflexão crítica, contextualizada e histórica, sobre as alternativas ao agronegócio, à agricultura convencional.

Como as políticas de planejamento territorial têm inserido a agroecologia na ocupação dos espaços?
Não têm inserido. Quando há essa política, têm uma compreensão muito restrita do papel da agroecologia para o planejamento adequado e sustentado de um território. Consumimos no dia a dia inúmeros produtos que vêm da árvore, da floresta, como papel higiênico, palito de fósforo, palito de sorvete, móveis, frutas. Temos a oportunidade, aqui no Brasil, de conviver com uma diversidade que nos oferece generosamente inúmeros frutos, mas ignoramos, vivemos com enormes monoculturas e precisamos importar produtos florestais. Então, para falar de planejamento territorial agroecológico, temos que começar a pensar na presença das árvores no cotidiano, desde a arborização urbana, das áreas de lazer, para que as pessoas possam se deslocar rapidamente até áreas naturais, com o bem-estar psicológico e físico que as árvores fornecem; até a arborização de fundos de vales que evitem a erosão, o assoreamento dos rios; a arborização que forneça madeira, carvão e madeiras dos mais diversos tipos para utilização. Um planejamento territorial que ignore isso não é planejamento territorial, e muito menos agroecológico.

É possível transmitir amor e conexão pela terra por meio da educação ambiental?
Depende de qual educação ambiental. Se for uma livresca, conteudista, prescritiva, eu diria que não. Ela pode falar sobre amor e conexão à terra, mas para que isso ocorra de fato, é necessário que a educação ambiental também se revitalize, no sentido de possibilitar aos professores e educadores em geral, não somente aos comunicadores que estão nos meios de comunicação, que eles se percebam como artífices de um processo educador no qual as pessoas aprendam com as mãos, aprendam fazendo, aprendam se transformando. Esse processo precisa ter uma qualidade que está distante dos nossos bancos escolares, e mesmo do universo de compreensão sobre o que é educação hoje. Há um empobrecimento da compreensão educadora como uma ação pragmática de formação de mão de obra para o mercado.

O movimento camponês tem sua “própria” educação ambiental? Como essa educação fortalece o movimento agroecológico frente ao agronegócio?

Parte do movimento camponês mais progressista, mais mobilizado, muitas vezes entra nesse campo da educação com os preconceitos vendidos pela mídia hegemônica, que diz que a educação ambiental tem compromissos apenas com a proteção do mico leão dourado, com as espécies animais e vegetais, não compreendendo o compromisso profundo com a vida. Compreender essa diversidade de fazeres ambientalistas, com ecologistas e educadores comprometidos, é um primeiro passo para que o movimento camponês adote uma educação ambiental que caminha pela transformação social, justiça social, que inclui bandeiras como a reforma agrária, a reforma agrícola, que possibilite ao agricultor viver na terra, com a terra e da terra, possibilitando alimentos saudáveis, bens ecossistêmicos para toda a humanidade. Essa educação ambiental precisa ser compreendida pelo movimento camponês, e esse movimento camponês precisa separar o joio do trigo e se apoderar da educação comprometida com esses ideais.

A educação formal das universidades, sobretudo das agrárias, fortalece o agronegócio? Como a educação ambiental pode contribuir no entendimento dos impactos negativos do agronegócio?

Ela fortalece o agronegócio, e a educação ambiental contribui para essa leitura crítica. Para maior presença dessa vertente comprometida com a agroecologia, ela precisa estimular as universidades e as instituições de educação superior a se ambientalizarem. Ambientalizar o curriculum das universidades, a pesquisa, a gestão e a extensão significa trazer uma agenda mais ampliada do que fazem. Hoje, poucas instituições trazem para a sua agenda a questão ambiental, e ainda trazem de uma forma tímida, reduzida, sequestrada por uma compreensão estandardizada do que é ambientalizar. Existem algumas redes que compreendem isso de forma ampliada, mas não conseguem percolar a gestão das universidades, então o máximo que conseguimos são algumas declarações bonitas sobre ambientalizaçao universitária, que não correspondem à mudança efetiva no cotidiano da universidade, nem na gestão, nem na pesquisa, nem na extensão.
É possível, e me parece que o papel da educação ambiental hoje é dialogar com as universidades, com os gestores, com os professores, servidores e estudantes para a construção de programas universitários de educação ambiental que coloquem essa agenda e estabeleçam estratégias para a transformação do fazer cotidiano dentro da universidade.
Na ESALq, na USP como um todo, estamos construindo a política ambiental. Os setores mais progressistas, mais comprometidos com o ambientalismo das universidades, são convocados a pensar estratégias, caminhos, que permitam mudanças culturais mais profundas dentro da instituição de educação superior, para que ela efetivamente se comprometa com essa proposta agroecológica e ambientalista que tanto almejamos.

Como podemos ampliar a participação do camponês e das pessoas com forte conexão com a terra como professores de educação ambiental?

Essas pessoas já são professores de educação ambiental e agroecologia, elas têm as mãos na terra e fazem cotidianamente iniciativas comprometidas com a agroecologização do planeta, são verdadeiros educadores. O que falta na universidade é reconhecermos isso e criarmos situações de ensino e aprendizagem que possibilitem o contato dos estudantes, professores e servidores com essa realidade, com essas emergências de conhecimentos e ações comprometidas com a transição agroecológica. Ampliar as conexões entre a universidade e essas pessoas significa reconhecer o papel educador delas e, ao mesmo tempo, ampliar a nossa capacidade educadora para além dos livros, pra além da sala de aula, conectando a universidade com essas inciativas e, ao mesmo tempo, potencializando essas iniciativas como um saber científico, como um saber setorial que muitas vezes é profundo dentro da universidade e acaba não sendo disponibilizado para essas populações, porque eles também não têm todas as soluções da transição agroecológica. Muitas vezes, eles encontram dificuldades relacionadas a conhecimentos específicos no campo do solo, das plantas, da entomologia etc, e nós, no nosso cotidiano acadêmico, acabamos sequestrados por um tipo de pesquisa comprometido apenas com o grande capital.
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