Saturday, 15 December 2012

Maraiwatsédé e o Senador Cidinho


Prof. Dr. Luiz Augusto Passos

// dezembro 14th, 2012 // Sem categoria
maraiwatsede
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Senador Cidinho,
Quando se tem acesso à terra necessária para o bem estar, se tem acesso à vida. Se tem acesso ao bem necessário, por sermos e termos corpo dependente dos recursos cósmicos para mantê-lo.  Esse cuidado do corpo é condição do nosso cuidado com o coração, alma e sentimentos. A terra é um direito a cada pessoa, mas ela também tem um direito primordial se continuar a recebe nosso cuidados, nossos carinhos, pelo dom gratuito dela para conosco, e fazer-nos gente no mundo. Reconhecida por todas as culturas do mundo como Mãe, o é, num sentido radical, não teríamos estaríamos no mundo, não sobreviveríamos e não seríamos pessoas sem ela. Abraço e laço primal de nossa convivência com o mundo; ela no coloca em relação com todos os outros seres, inanimados e animados, que se relacionam com a gente por ela, todos somos terra, ela gera um círculo de fraternidade universal e de comunhão de todos com tudo. Por isso não somos únicos neste planeta, sequer somos os melhores, sobretudo pela degradação causada à toda a realidade e em humanidade em dores de parto entre a barbárie e a solidariedade. Compartilhamos com a pedra, com a água, com as plantas, enfim com todos os bens o que a terra, antes, compartilhou de si conosco.
Violência contra terra, é violência contra nós, e contra todos e tudo. Violência contra quem quer que seja, animado ou inanimado, é também violência contra a terra, contra a vida, que só se mantem pela aposta perversa de um egoismo sem fundamento de que podemos nos apartar de todos os outros, com a pretensão de sermos o centro do universo. Não somos!
Os jornais publicaram, Senador Cidinho, sua manifestação raivosa, publicada no Diário de Cuiabá, acredito que fruto de equívoco. Nela se atribuía ao senhor a seguinte frase: “Hoje, podemos dizer que, primeiramente, existem os direitos dos índios e, depois, vêm os direitos dos humanos”, disse ontem senador Cidinho dos Santos (PR), sobre a retirada de posseiros da reserva Marãiwatsede.”
Senador, infelizmente, o senhor chegou muito depois dos Xavante, eles foram os primeiros na terra que o senhor propõe que lhes seja negada! O senhor sabe dos inúmeros documentos do século XVII que demonstram, com precisão, os povos que ocupavam a área do Mato Grosso com suas múltiplas nações, covardemente assassinadas, e que se estendeu, inclusive, à retirada do povo Xavante do seu território. O pesadelo das gravações fonográficas que formam um dossiê na polícia federal, filmes, fotografias, memória viva na população mato-grossense que está perplexa pela perversidade reiterada da acumulação de capital e de terra feita à custo da verdade, da justiça e de muito sangue. Apesar disso, os Xavante continuam os primeiros, não apenas naquela terra, mas também em dignidade. Lutam pela terra que conservam como continuidade de suas próprias vidas e das nossas. Infelizmente, falta-nos humanidade a todos nós não-indígenas a condição de grandeza e dignidade dos Xavante, Senador. Ele honram nossa humanidade, mas também honram os direitos humanos, porque cuidam do bem que nos garante a perspectiva de continuar respirando, nos alimentando, mantendo-nos e nos dando a chance de lutar, dia a dia, pela humanização de todos e todas, também dos não indígenas, mas também do direito da Terra, que também nos precedeu a todos, senador.
Os Xavante, ao contrário do que disse o Senador – se deveras disse o que lhe foi imputado pela imprensa – nos ensinam humanidade e nos obrigam a recuperarmos a noção e a sensibilidade dos Direitos Humanos entre nós, que os indígenas conhecem pela ausência deles no nosso meio. Se não houver índios reclamando direitos, senador, eles não existirão entre nós, nem como lembrança, porque nós os desconhecemos ou os negamos. O que os Xavante reivindicam é o direito de poderem ser INDIOS, indios a modo Xavante, que não querem se confundidos com a covardia que desde o primeiro contato com os não indígenas, os fizeram vítimas. Os Xavante eram indígenas amistosos, mas aprenderam – na marra – que em não indígena não se pode confiar. Souberam isso, a preço de ver suas mulheres violentadas, anciãs assassinadas, aldeias queimadas, crianças trucidadas por uma racionalidade que se imagina só no mundo, e que não carece dos outros, e a ninguém presta conta.
Os Xavante reivindicam, desculpe corrigi-lo,  não são os direitos de Índios serem índios porque nunca renunciaram à sua identidade de história,  o que eles reclama são os Direitos Humanos atribuídos por nossa constituição a eles, inclusive pelo direito internacional. Se os Xavante forem privados dos Direitos Humanos que reconhecem e demandam, e pelo qual lutam com cidadania, a quem iremos, Senador, aos “BRANCOS” que perderam a noção do que este direitos possam ser?
Direitos humanos que tem sido vilipendiados por uma institucionalidade empedernida, positivada e morta, na medida em sequer estimulamos em nós o respeito a nós mesmos, e não zelamos pelo pudor de dizermos com nossa boca o que empana ainda mais nossa condição [des]humana precisamente por sermos cegos e não enxergarmos que o direito reclamado pelo OUTRO e pelo DIVERSO nos salva!
Os Xavante nos incomoda porque se negam a subordinar-se à iníqua ordem de um capital assassino. Nos incomodam também porque mostram a vileza da nossa violência que se pretende racional e superior, capaz de produzir outra vez na história a vergonha de uma “solução final” pela morte .
Os Xavante serão e são vencedores, como o serão os Kaiowá-Guarani, os Munduruku, o Katawixi, Himerimã, Pataxó e todos os outros, que demonstram um nível de sensibilidade humana que quase todos nós já perdemos.
Eles serão a fonte, o manancial vivo de nos instigar a voltar à vida, à dignidade perdida pela extrema ganância que cultiva o genocídio, a  incapacidade de viver com o diverso e o diferente. Ele são voz no deserto que clama não apenas pela vida deles, mas de todos nós, de toda e qualquer vida, sem diferença, onde também a sua está contemplada, Senador.
Não use a palavra “Xavante” ou a palavra “índio” na contraposição da humanidade ela poderá ferir-nos a nós próprios. Vamos aproveitar o incidente, Senador, por esforçar-nos a reconhecer gosto de sermos gente, por termos raízes no mundo deles. Eu não  o conheço, mas acredito que podemos todos nós, o senhor também assumir que no seu sangue, como no meu, corre sangue luso-ibérico-afro-indígena, queiramos ou não, tantas vezes negado por nós, por medo de neste espelho descobrirmos, espantados, o quanto nos desumanizamos!
Use de suas prerrogativas, Senador, para pedir desculpas não aos indígenas mas à suas raízes feridas de morte que também são as nossas. Os que reivindicam Maraiwatsédé - território Xavante – e paralisam a desintrusão – o fazem em nome de grandes interesses de pessoas que não precisam de Maraiwatsédé, mas que o fazem como alvo simbólico por sua pertinaz resistência. A desintrusão da terra Xavante enaltece a humanidade de todos nós, porque estanca em parte o projeto de morte que não visa só Maraiwatsédé, mas tem por objetivo tudo o que se possa considerar terra, como recurso econômico, às custas da vida de pessoas e da terra.
Precisamos evitar, Senador, que seja utilizada a força e a violência para ferir direitos legítimos e legais à Humanidade de todos nós e dos indígenas.
Prof. Dr. Luiz Augusto Passos
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